Nov 202014
 
No dia 16 de Outubro comemoraram-se os 100 anos do nascimento de Estêvão Soares.

Um evento organizado pelos filhos do pintor, com o apoio da SNBA e da Pintora Maria Gabriel.

O MAC, pela presença do seu Diretor Dr. Álvaro Lobato de Faria, participou na Sessão de Homenagem e inauguração da exposição do artista que teve lugar na Sociedade Nacional de Belas Artes.

Estêvão Soares

Estêvão Soares

Estêvão SoaresEstêvão Soares, pintor português, nasceu na Marteleira em 1914 e faleceu em Lisboa em1992. A sua obra, tanto o óleo quanto a aguarela, constrói-se sobre alicerces figurativos e tem sido diversas vezes enquadrada na corrente naturalista. A extensa produção do artista ao longo de cinco décadas, principalmente em Portugal e nas ex-colónias de África, espelha as transformações por que passou o território continental e ultramarino durante a segunda metade do século XX.

Juntamente com outros pintores e escultores, incluindo António Carmo, Cipriano Dourado, Guilherme Casquilho e Hilário Teixeira Lopes, fundou em 1974 o Grupo Paralelo, cuja atividade se prolonga até aos dias de hoje. Está representado em inúmeras coleções particulares e diversos museus nacionais em Portugal e no estrangeiro, nomeadamente em Angola, Moçambique, África do Sul, Reino Unido e França.

 

Afirmação como pintor, Lisboa (1914-1954)

Estêvão Soares nasceu em 1914 na Marteleira, a 3 quilómetros da Lourinhã. Vai para Lisboa ainda durante a infância, onde passa a residir, e começa desde logo a evidenciar a sua vocação para o desenho e para a pintura. Durante as primeiras décadas de vida na capital, desenvolve as suas aptidões artísticas de forma autodidata, em contacto próximo com outros pintores da sua geração. Em termos profissionais, tal como acontecia com outros artistas plásticos da época, começa por se afirmar sobretudo nas áreas da publicidade e da decoração. A partir dos 30 anos de idade a sua carreira como pintor desenvolve-se já de forma autónoma, principalmente desde a sua participação no “Salão dos Excluídos”, que co-organiza em 1944. Esta mostra de artes plásticas provocou surpresa e alguma celeuma nos meios artísticos, culturais e oficiais, uma vez que agrupava os artistas que haviam sido excluídos da pré-selecção para o “1° Salão de Arte Moderna” do Secretariado da Propaganda Nacional. No ano seguinte realiza a primeira exposição individual de pintura, no átrio do Diário de Notícias, tornando-se a partir de então presença regular nos “Salões de Inverno” da Sociedade Nacional de Belas-Artes – da qual passa a ser sócio – e nos próprios “Salões de Arte Moderna” do SNI, onde em 1944 não fora admitido.

Nos dez anos seguintes sucedem-se as exposições individuais e colectivas, pondo em evidência uma obra de cariz essencialmente naturalista que retrata, com preciosos elementos de valor etnográfico, aspectos de um país onde a ruralidade era a norma e o próprio meio urbano resistia ao progresso e à industrialização. Desse período, várias regiões do país se encontram bem representadas, embora Lisboa, onde o artista residia, tenha natural predominância. É disso exemplo a exposição “Lisboa do Meu Álbum”, realizada em 1951 na SNBA. Em 1952, o Diário Popular atribui-lhe o Prémio de Turismo Português e em 1955 é a própria Sociedade Nacional de Belas Artes que lhe concede o prémio Roque Gameiro. No mesmo ano, é citado na “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira” e na “Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses ou que Trabalharam em Portugal” de Fernando Pamplona.

Viagens em África e regresso à Metrópole (1955-1973)

Em 1955 é desafiado para expor no Palácio do Comércio de Luanda, convite que aceita de imediato propondo uma grande exposição antológica intitulada “101 Óleos e Aguarelas”. O sucesso do evento em Angola faz o artista adiar o regresso a Lisboa e prolongar a sua viagem em África por mais seis anos. Face à sucessão de convites, viaja, pinta e expõe em diversos territórios ultramarinos, tanto portugueses (Angola, Moçambique) quanto de outras potências coloniais europeias (Congo Belga, África Equatorial Francesa, Rodésia do Sul e Niassalândia), passando ainda pela República da África do Sul. Retrata as cidades e as grandes obras públicas surgidas na última década, mas sobretudo as paisagens naturais e os povos que encontrava nas suas viagens fora dos centros urbanos, muitas vezes a regiões pouco frequentadas pelos colonos. Durante esses anos, reune um grande acervo de trabalhos que dão um valioso retrato das colónias portuguesas nos anos que precederam o eclodir das guerras de libertação.

Regressado a Lisboa em 1961, retoma as exposições em Portugal continental, algumas delas retrospetivas de trabalhos executados aquando da sua viagem por África. É o caso, por exemplo, das duas exposições individuais que realiza no Palácio Foz, em 1967 e 1968. Ao longo dos anos ’60, e durante as décadas seguintes, é assíduo nas tertúlias do café A Brasileira do Chiado, que reunem várias figuras do mundo artístico e intelectual da época, entre eles o pintor Abel Manta, o polifacetado Almada Negreiros ou o realizador Arthur Duarte, com quem estabeleceria uma duradoura amizade. Durante este período, a sua obra torna-se mais permeável a outras correntes estéticas, revelando ocasionalmente influências do expressionismo e do abstracionismo, linguagens a que recorre para traduzir a progressiva modernização dos espaços urbanos que pinta, e que se acentuará nos anos ’70 e ’80.

Pós-25 de Abril e Grupo Paralelo (1974-1991)

Após uma curta viagem a Londres, regressa a Lisboa nas vésperas do 25 de Abril de 1974. Com o fim da ditadura e fervor revolucionários dos anos do PREC, empenha-se em causas políticas e sociais que dão um cunho mais interventivo à sua obra. Deste período datam numerosos trabalhos que testemunham as manifestações, comícios e intervenções políticas que marcam então o quotidiano da capital. Na Primavera de 1974 funda o grupo Paralelo 12 em conjunto com 11 outros artistas plásticos: Adão Rodrigues, Alberto Gordillo, Álvaro Perdigão, António Carmo, António Trindade, Cipriano Dourado, Guilherme Casquilho, Teixeira Lopes, Ribeiro Farinha, Rogério Amaral e Virgílio Domingues. No espírito da época, este conjunto de pintores e escultores esteticamente heterogéneo propunha-se divulgar as artes plásticas pelo país, elegendo como prioridade o território virgem que a província então representava e apontando, a mais longo prazo, à internacionalização. Posteriormente, o grupo acolheria outros artistas plásticos como Boavida Amaro, João Duarte, João Hogan, Jorge Vieira, José António Flores, Lurdes Freitas, Maurício Penha, Noémia Cruz e Querubim Lapa, encurtando a sua designação para Paralelo.

Neste período começa também a colaborar na Festa do Avante, participando na elaboração de murais e cedendo obras para exposição. A sua filiação no Partido Comunista Português faz com que, a partir do 25 de Novembro de 1975, o circuito de exposições se torne ideologicamente seletivo ao acolhimento das suas obras e das de outros artistas conotados com o PCP, que vêem agora dificultada a divulgação do seu trabalho em muitos municípios do Norte do país. Ainda assim, as exposições individuais e coletivas – principalmente com o grupo Paralelo – sucedem-se ao longo dos anos 70 e 80. A nível individual, destacam-se as que realizou em 1978 na Galeria 21 de Faro, em 1979 na Biblioteca Nacional e na Casa do Alentejo, em 1980 no Palácio Foz, em 1982 na Câmara Municipal da Amadora e em 1987 na Casa da Imprensa. A sua última exposição foi na Galeria Municipal de Portalegre, em 1990. Faleceu em Lisboa em 1992, aos 77 anos de idade.