May 172010
 

Ao longo dos séculos, situações ocorreram diariamente, e entre os 365, o dia 23 de abril não foi diferente. Em 1563 começaram as obras do Monastério do Escorial; em 1844, se inicia a publicação dos Anais da Universidade do Chile (obra periódica mais antiga em espanhol da América). Nesta mesma data, em 1951, é criado a Associação da Academia da Língua Espanhola. Ou ainda um fato, que não está conectado a cultura, mas abalou Madri, foi o movimento sísmico de grande intensidade em 1909. E como cristãos que sois não se pode esquecer a morte do soldado e mártir romano que culminou no dia de São Jorge.

 

E dos acontecimentos diários, alguns se tornam importantes, e 23 de abril é lembrado pelo nascimento, em 1564, de William Shakespeare, ou seu falecimento que sucedeu no mesmo ano (1616) de Miguel de Cervantes, e esses são comemorados anualmente e foram fincados no calendário culminando no dia mundial do livro. Alguns festejam devido a Shakespeare, outros por “Dom Quixote”; na Espanha, da morte de seu compatriota, surgiu o Prêmio Cervantes desde 1976, que, aliás, este ano, foi contemplado a José Emilio Pacheco.

Cada região celebra este dia à sua maneira, e Madri pelo quinto ano promove a Noite dos Livros, e com este lema – Me presenteie com um livro? Te presenteio um livro – é promovido a sexta-feira literária. O objetivo principal é uma aproximação a literatura e aos livros, incitar a leitura e visitas a bibliotecas, mas também para aumentar as vendas nas livrarias, como confirma Nuria Cubas, professora de história do cinema. “Influenciar a leitura sempre é bom, mas temos que comentar que é uma forma de aumentar as vendas, como acontece no dia dos namorados, natal e outras festas”.

 

O comércio literário movimenta aproximadamente 700 milhões de euros na comunidade de Madrid, e por estas cifras, a maior parte dos eventos se sucede em 150 livrarias, com tertúlias, conferências, debates, encontros e leituras. Mas também muitos outros espaços abarcam esta festa, como cinemas, museus, bibliotecas, cafés e rádio, aumentando a gama de atividades que vão de concertos a tapas no bairro das letras.

 

À margem da programação oficial

 

Espera-se qualquer evento vinculado a livros em bibliotecas, obviamente em livrarias, em museus, tertúlias em cafés (como realizavam os grandes pensadores no século passado), e até em cinemas, pois afinal a sétima arte está intimamente relacionada à literatura, porém, é incomum alguma atividade em um bar. Local onde as diversas idades se encontram para relaxar da carga pesada dos estudos ou trabalhos diários, onde os jovens comentam futebol, assuntos irrelevantes, nada que produza alguma tese científica. E entre cervejas, papéis e idéias na entrada do Espaço Niram, está a programação: poesia, debate e música.

Uma rua pouco movimentada, entre as tantas que a poucos metros do metrô Ópera se diferencia com uma mistura de táxi e transeuntes buscando diversão à noite. Uma pequena porta com sua maçaneta personalizada abre para o recinto. Um pequeno bar à direita aumenta a quantidade de espaço, panos vermelhos percorrem todo o espaço. Cadeiras com seus pés acorrentados com um ar medieval, fotos e objetos espalhados no mezanino. Velas acesas há muito tempo escorrem suas lágrimas no candelabro acima das mesas de centro. Sofás e seus encostos com poemas e assinaturas dos visitantes. Um cachorro que caminha pelo chão repleto de cartazes e pelas pessoas que fixam seus olhares na atração.

 

A poesia de Ionela Flood

 

A poetisa em pé recita o livro ??rmurile Iubirii (as orelhas de amor) em romeno, enquanto outros três ressoam em inglês, espanhol e português causando um efeito de eco no ambiente. São oito poemas e uma pausa. Ionela apresenta este primeiro livro pessoal que ganhou o Prêmio da Municipalidade de Alba Iulia e o Prêmio estréia Grigore Vieru, com ilustrações de Ion Astalu?, Adina Romanescu y Adela Ursache entre os 44 poemas. E da tradução simultânea relata o amor como principal temática dos seus versos. “O amor que buscamos com maior ou menos intensidade. Um amor que compartimos como um casal feliz. O amor que nos transforma em uma experiência mística, este amor de todas as formas que me atrevi e pus no papel”.

 

E quem traduzia, agora opina e faz uma breve crítica sobre os poemas. “A preocupação com místico é constante nesta obra. Ionela buscou as rimas que atualmente são pouco utilizadas, ressuscita vivências pessoais e transforma de maneira simples. Fala de Deus que pouco aparece entre os poetas”, completaFabianni Belemuski, diretor da Revista Niram Art. O volume da música ambiente aumenta, o cachorro volta a circular entre as mesas, agora com um companheiro de pelúcia. Os casais se aproximam, os amigos retornam para as conversas, para os olhares e risos. Os copos e seus líquidos coloridos se movem de baixo para cima. As fumaças dos cigarros se espalham novamente, a bituca queima no cinzeiro. O balcão outro vez ocupado, enquanto a poeta caminha assinando seus livros. Os convidados vãos para seus lugares, enquanto a televisão anuncia o próximo evento.

 

Eugène Ionesco de Slatina a Madrid

 

O director da Sociedade Cultural “Eugéne Ionesco” de Slatina, George Smarandache, apresenta o dramaturgo romeno e sua biografia. “Eugène é autor teatral francês de origem romena, nasceu em Slatina no ano de 1912, e faleceu em Paris, em 1994… Junto com Samuel Beckett foi o criador do teatro do absurdo, onde seu princípio essencial é subverter os procedimentos de transposição literal da realidade”.

 

A platéia entre as taças de vinhos e coquetéis fixam os olhos na atração, e risos soam alto pelo ambiente. O microfone ligado passa para o outro convidado, que relaciona o teatro espanhol atual com a obra Ionesco. Ignácio Pajón Leyra, dramaturgo e diretor das Edições Antígona explana sobre o ponto de vista de autor e critica a política teatral. “As obras de Eugéne é umas das preferidas na Espanha, suas peças sempre alteram de alguma maneira a pessoa que o assiste. Mas os produtores pouco usam suas obras, o teatro se tornou algo apenas rentável, os produtores acabam utilizando obras com mais de 70 anos para diminuir gastos, e obras mais contemporâneas e importantes como Ionesco não são encenadas.”

 

Das práticas teatrais e biografia as palavras seguem para a análise da obra. E o microfone já está nas mãos do autor do livro Pentágono, Héctor Martinez Sanz. “Ionesco enfrentou a racionalidade conceitual, agarrando à irracionalidade através do paradoxo, do contra-sentido, do sarcasmo, ironia, disparate e exageração. Enquanto há um deslocamento entre ideologia e realidade há o absurdo”. Entre as formas utilizadas e questionadas pelo teatro do absurdo estão o segredo de não esconder os truques de cena, não tentar enganar o espectador, não tentar parecer real, e sim, acentuar, remarcar, exibir, fazendo um teatro violentamente cômico e dramático.

 

E o público esboça algumas perguntas, surgem algumas discussões e o relógio soa uma hora, o horário final da programação oficial da Noite dos Livros. Mas há mais para ver, e os espectadores apreciam a última apresentação. Victor Santal e a harpa celta ressoando músicas próprias e medievais, instrumento dito que é tocado no céu.