May 172010
 
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Como um artista atraindo atenção para sua arte, lá está o Grand elefant dret, com suas pernas para o ar entre a floresta e a ferrugem do edifício, e aí está o produto à imagem de seu criador. Miquel Barceló circula entre as selvas de pedras e folhas, entre a passagem de tempo e dos espaços, entre o mar e a terra. E a partir disto, das temáticas, é apresentada a retrospectiva de suas obras de 1983 a 2009, La solitude organisative.

Sendo impossível mostrar os 26 anos de trabalho, tanto pela quantidade, como pelo tamanho, já que ainda existem as obras públicas, como na capela de São Pedro e na cúpula do Palácio das Nações, a opção de agrupar em sete tópicos seria capaz de abranger a totalidade de suas obras. Então, esta boa eleição dos temas, traz à superfície as incertezas, medos e inquietação de Barceló, Peintre sue Tabourey – 1998, além de iluminar o caminho do pensamento à obra finalizada, Chemin de Lumière – 1986, no entanto não esclarece totalmente. Pois “tendo esta luz tão tênue” (para ter a experiência de captar imagens semelhantes às débeis luzes da igreja) ainda é difícil compreender tanto a obra, como sua construção, que a primeira vista, nos estranha.

A incompreensão se confirma ao ouvir uma senhora reclamando sobre uma bituca colada à pintura, em seguida nega ser arte, enquanto os vigilantes afirmam que caiu ao acaso. Sim, a arte de Barceló pertence ao acaso, aparece em Moi – 2005 que inacabada em um canto, surgiu as teias, o ninho de besouro e o pó, e ele utilizou este passar do tempo acrescentando-os à obra. Ou em Ratjada- 2008, que nos trapos que cobriram o solo das cúpulas que pintou, caíram gotas de tinta, ele aproveitou o pano e desenhou animais marinhos. E nestas pinturas, onde o conceito tem prioridade sobre o resultado da obra, a compreensão da idéia não está sempre tão perto dos olhos, e nem todos estão habituados a ver o violento, o escatológico, a degradação. Para isso (e usando sua metáfora que a arte é o mesmo que cozinhar) é necessário por na boca, mastigar sua obra lentamente, sentir cada textura, diferenciar seus gostos. E nisto, um maior número das concorridas visitas guiadas poderia ajudar aos leigos e distraídos.

As 180 peças expostas, entre esculturas, pinturas, desenhos, ilustrações, mostram a inumeráveis fases e facetas do artífice, e também a constância na representação de alguns temas.

No mar, o museu, a biblioteca e o estudo, alude a suas lembranças de Mallorca: como sentir o efeito de morder um polvo nos olhos para matá-lo e a tinta já inútil tingindo a água; ou com seu “exílio”, até a morte de Franco, que o lócus solus, as intensas leituras e produção artística foi a faísca para articular uma linguagem própria.

Para Miquel Barceló, nestes tempos de individualismo feroz, a única postura plausível é a mais audaz e radical possível, e assim, seu estado nômade, sua ausência de fixidez, sua metamorfose constante afetou em uma real deriva física, mudando de lugar e país constantemente, e é sobre isso que a sala Diários retrata, suas viagens físicos e espirituais. Neste espaço se encontra os extremos cronológicos de sua arte, a primeira, Auto-retrato com cachorros- 1983, e a última e inédita para o público, Sín titulo- 2009.

Das viagens e constante evolução, “repinta” observando a natureza, e por isso escapou do vácuo ocidental, buscando o contato com a terra, atravessou o deserto do Saara. Nesta experiência resultou o ambiente Fugir do excesso, onde se afasta do exagero do volume e cor, e propõe a perda da noção da escala.

Retratos abrange tanto as imagens de seus amigos africanos, produzido com materiais locais, e também as pinturas das pessoas próximas, das que admira. Neste ambiente que se encontra o tema da exposição, o auto-retrato de um gorila em um canto, onde se relaciona com a evolução humana e se identifica com o símio, por haver começado pintando a quatro patas e agora levantado, evoluiu. A solitude da palavra remete à introspecção necessária para a criação artística. Organizative, é a organização do caos do mundo, é ele próprio, como animal, sentado no caos de cores no lenço que forrava o solo, enquanto pintava a cúpula do Palácio das Nações Unidas.

É certo que Barceló está projetado internacionalmente, e nacionalmente, e foi premiado com Príncipe de Astúrias das Artes e Prêmio Nacional Belas Artes, entre outros, mas seus animais trabalharam bem e atraíram a atenção dos transeuntes, que preencheram todo o tempo e o espaço da exposição. Começando pelas cadeiras, onde alguns esperavam a visita guiada, enquanto assistiam em vídeo a performance Passo Duplo, do Festival de Aviñon.

Em paradoxo a sua constante mutação, pois na maioria de suas exposições apresenta os mesmos trabalhos, esta foi escolhida por Catherine Lampert, comissária da exposição, mostrando outro ponto de vista de sua coleção. Além das divisões já explicadas, ainda constam as salas: um repertório da esperança humana; todos estes quadros pertencem ao mundo terrenal e caminhos da luz.

Bom apetite!